Com alta de 190% no preço do cacau, Páscoa terá menos ovos e chocolate mais caro; entenda
Por Administrador
Publicado em 19/03/2025 06:24
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Em 2025, a Páscoa será de menos chocolate, ovos mais caros e produtos com menos cacau preveem economistas e representantes do setor. A alta nos preços do cacau é um dos fatores que contribuem para o cenário. Em dezembro de 2024, a tonelada do fruto chegou a ser comercializada por US$ 11.040 na cotação da bolsa de valores de Nova York, o que representa uma alta de 163% em comparação com o mesmo mês em 2023. Em dois anos, o preço já subiu 190%. As informações são do g1.

 

 

 

O aumento dos preços, por outro lado, é impulsionado por questões climáticas nas lavouras dos maiores produtores do fruto no mundo, localizadas na África. O continente africano representa 70% do fornecimento mundial da amêndoa. A Costa do Marfim, por exemplo, a maior produtora, sozinha gera 45% do cacau do planeta.

 

Isso afeta diretamente o chocolate brasileiro, uma vez que o cacau é uma commodity, ou seja, tem o preço definido internacionalmente.

 

Ao longo de 2024, os produtores dos chocolates industrial e artesanal utilizaram estratégias para driblar a alta e não repassar o preço para os consumidores finais. Entre elas estavam optar por mais mix de produtos e diminuir o tamanho da embalagem.

 

Páscoa mais cara

Estratégias como essas, no entanto, podem ficar mais difíceis de realizar nesta Páscoa. Isso porque a amêndoa utilizada na confecção do chocolate para o feriado foi adquirida no segundo semestre do ano passado, quando o preço atingiu o pico.

 

Além desse fator, em 2025, menos ovos de chocolate serão comercializados. Neste ano, serão produzidos cerca de 45 milhões de unidades, o que representa uma queda de 22,4% na comparação com 2024, quando a fabricação foi de 58 milhões. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab).

 

No ano passado, a produção mundial de cacau teve o terceiro ano seguido de déficit, ou seja, os países produziram menos cacau do que consumiram, explica Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC).

 

Desde a safra de 2021/2022, os países já deixaram de produzir 758 mil toneladas, de acordo com a Organização Internacional do Cacau (ICCO).

 

Mesmo que o Brasil contribua com cerca de 4% da produção mundial de cacau, o país não consegue suprir a própria necessidade do fruto. Em 2024, por exemplo, o mercado nacional demandou cerca de 229 mil toneladas, mas colheu apenas 179,4 mil. Isso representa uma queda de 18,5% em relação a 2023.

 

O volume moído também teve uma retração na comparação com o ano anterior. Na ocasião, foram industrializadas 253 mil toneladas. O principal motivo é a queda na demanda por conta do preço do chocolate, conforme a presidente executiva da AIPC.

 

Os pesquisadores entrevistados pelo g1, no entanto, dizem que ainda há potencial para aumentar a produção, já que o país tem o clima ideal e espaço para isso. Uma melhora significativa no setor pode levar, no mínimo, seis anos. Segundo os especialistas, esse é o tempo em que um cacaueiro recém-plantado começa a dar uma boa produção.

 

O que esperar para a Páscoa de 2025?

A alta do cacau reflete, aos poucos, nos consumidores de chocolate. Nos acumulados dos 12 meses até janeiro, o preço do chocolate em barra e do bombom subiu 16,53%, enquanto o chocolate e o pó achocolatado encareceram 12,49% segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Isso fez com que a indústria chocolateira tomasse medidas para minimizar esse impacto, ainda preservando o número de consumidores. Algumas delas foram diminuir o tamanho das barras e lançar mais mix de produtos, afirma Francisco Queiroz, analista da consultoria Agro do Itaú BBA.

 

“Dentre as preferências do brasileiro, o chocolate ao leite segue sendo o favorito, porém o mercado investe em novas combinações com frutas, amendoim, pistache, diversificando a gama de produtos, com diferentes intensidades de cacau e tamanhos”, disse a Abicab em nota.

 

O vice-presidente da Cacau Show, Daniel Roque, disse ao g1 que os produtos para a Páscoa deste ano não tiveram redução de tamanho. De acordo com ele, a medida, já tomada em casos anteriores, acontece somente na busca de uma melhora na experiência de consumo.

 

Roque diz também que as combinações com chocolate não foram lançadas por conta do preço do cacau, mas por “lembrarem sobremesas” e terem demanda.

 

Em agosto do ano passado, as empresas Nestlé e Mondelez Brasil — dona de marcas como Lacta, Bis e Oreo — questionadas pelo g1, informaram ter lançado produtos de diferentes tamanhos para atender à necessidade de mercado.

 

Na ocasião, as duas foram questionadas sobre as perspectivas para a Páscoa, mas não retornaram até a publicação da reportagem.

 

— O chocolate com certeza será mais caro [nessa Páscoa] do que foi no ano passado — diz Queiroz.

 

Mesmo que parte do chocolate vendido agora tenha sido adquirido no fim de 2024, quando os preços estavam altos, esse não é o único fator para o aumento. Anna Paula Losi, da AIPC, lembra que o cacau é apenas um dos ingredientes do chocolate. Por isso, é possível impedir que o preço suba na mesma proporção que o da amêndoa.

 

Outros fatores que impactam o preço dos ovos de Páscoa são a infraestrutura e a logística de transporte, pois são produtos muito frágeis, explica Marcos Silveira Bernardes, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e produtor de cacau.

 

Para a Páscoa deste ano, a Cacau Show fez um reajuste entre  8% e 10% nos preços, disse Roque, vice-presidente. Ele diz que o valor é abaixo da alta da amêndoa, e que o setor perderá rentabilidade para não encarecer ainda mais o chocolate.

 

Mesmo com a alta, Roque diz que a demanda de Páscoa se mantém a mesma do ano passado para o período. Além disso, o vice espera que haja um crescimento dos consumidores, uma vez que a empresa aumentou o escopo de produtos em várias faixas de preço.

 

Cacau foi a commodity que mais encareceu em 2024

O cacau foi a commodity que mais encareceu no ano passado, devido a principalmente problemas climáticos na África. Com a atuação do El Niño, o continente sofreu com estiagem, excesso de chuvas no momento errado, pragas e doenças, como a podridão parda (causada por um fungo, que deixa o fruto com um cheiro característico de peixe), aponta Queiroz.

 

Outro problema foi a idade das árvores na Costa do Marfim e em Gana, segundo maior produtor mundial. Elas são muito velhas e não houveram investimentos para a renovação delas ao longo dos anos.

 

— Além de deixar a árvore mais suscetível às questões climáticas, acaba também reduzindo a produtividade dos pomares — diz o analista da consultoria do Itaú BBA.

 

Ainda que o mesmo cacaueiro seja capaz de dar frutos por muitos anos, é necessário fazer uma renovação da lavoura a cada 15 ou 20 anos para manter uma boa produtividade, segundo Losi, presidente executiva da AIPC.

 

Os produtores não fizeram essa renovação por ser um alto investimento. Segundo Bernardes, o cacau deixou de remunerar o agricultor, que acabou desestimulado.

 

— O produtor sempre acreditando que haveria alguma melhoria, o que nunca acontecia. E o preço baixo se prolongou até o abandono das lavouras — pontua Queiroz.

 

Todos esses fatores refletiram na produção. A Costa do Marfim, por exemplo, teve uma queda expressiva no último ano. A colheita de 2,12 milhões de toneladas na safra 2022/2023, diminuiu para 1,8 milhão de toneladas em 2023/2024.

 

Brasil também foi afetado

Os problemas climáticos também afetaram o Brasil, 6° maior produtor do mundo de cacau. De acordo com a presidente executiva da AIPC, o país também sofreu com pragas e doenças. Na Bahia, por exemplo, houve incidência da podridão parda.

 

— Tem produtor que me contou que perdeu mais de 60% da produção — declara.

 

Na indústria moageira brasileira, os estoques de cacau começaram o ano em baixa. Losi conta que o normal é moer cerca de 60 mil toneladas no primeiro trimestre. Este ano, o recebimento de carga nacional não chegou a 20 mil toneladas.

 

— Se a gente vem de um ano que a produção foi baixa, o recebimento foi baixo, a gente acaba tendo que importar o volume para garantir que as fábricas não vão parar nesse período — diz a presidente.

 

A questão é que, mesmo antes da crise, o Brasil não produzia o suficiente para atender o mercado interno. No passado, o país já chegou a ser autossuficiente, mas, na década de 80, teve as lavouras dizimadas pela doença vassoura-de-bruxa, que deixa os ramos do cacaueiro secos, como uma vassoura velha. Até hoje, o setor tenta voltar aos patamares anteriores, explica Losi.

 

Fonte;NSC

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