O silêncio cotidiano do Cemitério Municipal de Schroeder tornou-se um espaço de criação, reflexão e significado para Pablo Luis Nicoline, de 39 anos. Há dez anos atuando como coveiro no município, ele encontrou na arte uma forma singular de expressar sentimentos, ressignificar o luto e oferecer acolhimento às famílias enlutadas.
Morador do bairro Vila Amizade, em Guaramirim, Pablo é servidor público em Schroeder e conhecido pela comunidade como "Pablo Coveiro".
Diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA) nível 1, ele relata que o hiperfoco foi determinante para o aprendizado da escultura, técnica que desenvolveu de forma totalmente autodidata ao longo do último ano.
Após meses de estudo, dedicação e experimentação, Pablo está prestes a concluir sua primeira obra, moldada em cimento.
A escultura marca o início de um projeto maior: uma série de 12 peças que ele pretende instalar no próprio cemitério, ocupando espaços hoje abandonados e transformando o local em um ambiente de memória, respeito e reflexão.
Etapa final da escultura já no mês de dezembro.
Para o coveiro, o silêncio do cemitério nunca representou afastamento, mas sim reverência.
"É nesse silêncio que consigo ouvir o que meu coração quer dizer", afirma.
Segundo ele, a obra vai além do aspecto estético e carrega um profundo valor simbólico, funcionando como um gesto de reconhecimento a cada pessoa sepultada ali e às famílias que seguem vivendo o processo do luto.
Morador do bairro Vila Amizade, em Guaramirim, Pablo é servidor público em Schroeder
A iniciativa nasceu da vivência diária em um ambiente marcado pela despedida, mas também pela humanidade.
"Quero mostrar que, mesmo em um lugar associado à dor, é possível encontrar cuidado, empatia e beleza", resume.
A primeira escultura deve ser finalizada nos próximos dias e simboliza, para Pablo, superação pessoal e entrega. O projeto une trabalho, fé e serviço público, com o objetivo de transformar o luto em memória e respeito.
A seguir, confira a entrevista exclusiva concedida por Pablo Luis Nicoline à Rádio Schroeder e ao Portal de Schroeder.
ENTREVISTA
Você é natural de qual cidade e como foi sua infância até chegar a Schroeder?
"Sou natural de Jaraguá do Sul, mas trabalho em Schroeder há dez anos. Minha infância foi de muita solidão. Autista não diagnosticado, sempre tive dificuldade de me relacionar. Apesar de amar muito as pessoas, sinto que algo em mim as mantém afastadas. Meu filho, que também é autista e tem talento na dança, diz que eu sou muito sisudo."
Em que momento da vida decidiu trabalhar como coveiro e o que o motivou?
"Nunca consegui ficar muito tempo nos trabalhos. Minha franqueza nunca ajudou nas relações com figuras de autoridade. Depois de muitos problemas, percebi que seria melhor viver mais recluso do meio social. E funcionou: hoje estou há dez anos cuidando desse santuário de lembranças. A escolha veio por dois fatores: esse meu jeito e, principalmente, a morte da minha mãe. Naquele dia, ninguém conseguia me alcançar com palavras. Foi no cemitério que entendi o poder de um olhar. Um simples olhar de um humilde coveiro disse tudo o que ninguém mais conseguiu."
Como foram seus primeiros dias no cemitério municipal?
"Foram curiosos. Nunca pensei que seguraria uma colher de pedreiro para contar e encerrar histórias. Ver o luto todos os dias deixa a gente meio cinza. As pessoas acham que isso nos torna mais conscientes, mas não é bem assim. Eu erro todos os dias. O cemitério me ensinou que não devemos perder tempo lamentando erros, mas aprender com eles e seguir em frente."
Quando percebeu que a arte poderia ser uma forma de expressão nesse ambiente?
"Percebi ao conversar com uma senhora que me perguntou há quanto tempo eu trabalhava ali. Aquilo me chocou. Estou há dez anos aqui e quase ninguém sabe o quanto me dedico. Mas eu não posso sorrir, não posso dizer 'volte sempre'. Para muitos, sou apenas o homem que enterrou alguém. Como mostrar que amo servir sem parecer um monstro sem alma? Foi aí que pensei na arte."
Como surgiu a ideia de começar a esculpir?
"Quis fazer algo que falasse com a dor das pessoas de um jeito que eu não consigo falar. Escrevi minha primeira fábula sobre o luto, ficou linda, mas faltava algo. Então senti que precisava esculpir. E esculpi."
Imagem do projeto
Houve alguma referência artística ou foi totalmente autodidata?
"Sempre amei arte e música, mas nunca fui artista. Comprei livros de anatomia humana, ferramentas e me entreguei ao hiperfoco. Muitas vezes acordei de madrugada com ideias para superar minhas próprias limitações técnicas. Superei muitas dificuldades e cheguei a esse resultado. Espero que não seja só sorte de principiante, porque já tenho outra fábula pronta, esperando por outra estátua."
Evolução da obra
Trabalhar com o luto mudou sua forma de ver a vida e a morte?
"Me fez entender que não existe idade certa para morrer e que a dor do luto é proporcional ao amor vivido. Saber que a morte é comum a todos não deve nos paralisar, mas nos fazer estar presentes de corpo e alma, seja acariciando o cabelo do meu filho ou transformando cimento em arte."

Existe alguma história que influenciou diretamente essa obra?
"O título 'O Luto' veio de ver como as pessoas ficam perdidas quando perdem alguém. Quando a pessoa está viva, o amor tem destino. Quando morre, o amor fica vagando até entender que o luto será sua companhia eterna."
O que essa primeira escultura representa para você?
"Representa superação. Ela me mostrou que eu posso ser excelente. Se isso tocar o coração das pessoas, então vale a pena tudo o que vem junto dessa escolha."
Imagem colorizada em tons de dourado por meio de inteligência artificial, para visualizar como ficaria.
As próximas esculturas já estão planejadas?
"A próxima já tem título, projeto e fábula. Vai falar sobre o tempo - passado, presente e futuro - e como eles podem ser bons ou ruins, dependendo de como interagimos. Será um homem observando a areia de uma ampulheta escorrer por entre os dedos. Um grande desafio."
Quanto tempo imagina levar para concluir toda a série?
"Cada peça deve levar cerca de um ano, tanto pela dificuldade técnica quanto pela questão financeira. A primeira eu custeei sozinho. A segunda será mais cara. Encontrei pessoas de bom coração dispostas a ajudar, mas ainda é pouco perto do tamanho do projeto."
Pretende expor as obras apenas no cemitério?
"A princípio, sim. Estou registrando a autoria, mas quero que fiquem aqui. Quero que esse cemitério se torne algo especial, que as pessoas vejam a vida e a morte pelos olhos de um coveiro. Que entendam melhor a morte para viver melhor a vida."
Como tem sido a reação das pessoas?
"São reações muito diferentes. Para quem perdeu alguém, a obra é um abraço. Para quem nunca perdeu, é um aviso."
Você se vê conciliando oficialmente o trabalho de coveiro e artista?
"Não me sinto artista. Usei a arte para dar vazão a um sentimento que precisava sair. Minha arte fala melhor do que eu."
Que mensagem gostaria que as pessoas levassem ao ver suas obras?
"Quero que se deixem tocar. Um amigo me disse que a obra o fez pensar na vida e na morte, e isso ganhou meu dia. Quero que entendam que essa arte não poderia ser feita por qualquer um, mas que quem a fez poderia ter vindo de qualquer lugar - até mesmo de um cemitério."
Fonte:Portal de Schroeder