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Derrocada da dengue: Método Wolbachia já mostra resultados positivos na redução de casos em SC
Por Administrador
Publicado em 25/01/2026 06:07
Saúde

Febre alta, dor no corpo e mal-estar. Estes sintomas podem se confundir com doenças como gripe e outras infecções virais, mas também são sinais de alerta para a dengue, condição que vitimou 22 pessoas em Santa Catarina no último ano. O número, porém, é 93,5% menor do que o registrado em 2024, quando 341 morreram devido a complicações da dengue. Especialistas afirmam que a redução da quantidade de ocorrências e óbitos pode ser atribuída, principalmente, ao Método Wolbachia, que iniciou sua implementação no ano da explosão de casos no Estado.

 

A metodologia foi aplicada pela primeira vez em território catarinense em 2024, na maior cidade do Estado: Joinville foi selecionada pelo Ministério da Saúde para receber o Método Wolbachia devido aos grandes números de casos e mortes relacionadas à dengue registrados nos últimos anos.

 

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Vacina é uma das aliadas na prevenção da doença (Foto: Divulgação)

 

Número de casos em Joinville caiu em 98% (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Wolbitos (Foto: Wolbitos do Brasil, Divulgação)

 

Primeiros Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia começaram a ser produzidos em Joinville em agosto de 2024 (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Primeiros ovos de Wolbitos em Joinville (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Wolbitos (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Operação é feita na Biofábrica do Método Wolbachia, localizada no Bairro Nova Brasília (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Larvas passam pelo processo até se tornarem mosquitos para serem soltos (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Biofábrica de Joinville (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Operação na biofábrica de Joinville (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

 

Vacina é uma das aliadas na prevenção da doença (Foto: Divulgação)

 

Número de casos em Joinville caiu em 98% (Foto: Prefeitura de Joinville, Divulgação)

Apenas em 2024, 83 pessoas morreram e 80.232 casos de pessoas infectadas foram confirmados na cidade. O número varia nos anos anteriores, com 39 mortes e 44.086 casos em 2023; 19 mortes e 21.304 casos em 2022; 5 mortes e 16.423 casos em 2021; e zero mortes e 8.743 casos confirmados em 2020.

 

 

O resultado de 2025 se assemelha com o de cinco anos atrás, mas demonstra que até mesmo os casos confirmados sofreram uma queda após a implementação do Método Wolbachia: nenhuma pessoa morreu e apenas 1.023 pessoas foram infectadas.

 

A médica infectologista Sabrina Sabino afirma que a metodologia mudou a forma como a dengue é vista e encarada em Santa Catarina.

 

— A ampliação da faixa etária da vacinação, aliada ao investimento em tecnologia, como o Método Wolbachia, sem dúvida nenhuma foram marcadores históricos aqui para Santa Catarina — afirma a médica infectologista.

 

Como a Wolbachia foi descoberta

Apesar de chegar em Santa Catarina em 2024, o Método Wolbachia surgiu na Austrália há cerca de 15 anos. A metodologia foi aplicada pela primeira vez em 2011, no Norte da Austrália. Mas as pesquisas com a Wolbachia começaram há mais de cem anos, em 1924, quando dois pesquisadores norte-americanos, Marshall Hertig e Simeon Burt Wolbach, descobriram uma pequena bactéria no mosquito Culex pipiens.

 

Após mais de uma década de estudos, Hertig a nomeou como Wolbachia pipientis em 1936. E foi apenas entre as décadas de 1980 e 1990 que o pesquisador e professor Scott O’Neill passou a estudar a Wolbachia e a dengue de forma associada.

 

O que é a Wolbachia

A Wolbachia é uma pequena bactéria que está presente em cerca de 60% dos insetos. Inicialmente, pesquisadores indicaram que a Wolbachia teria pouco ou quase nenhum risco aos humanos. Ao longo dos anos, o benefício foi comprovado e estudos de introdução da bactéria em outros insetos iniciaram.

 

Conforme o World Mosquito Program, os mosquitos infectados com Wolbachia têm o potencial de substituir populações de hospedeiros não infectados ao longo de várias gerações. Isso significa que se um mosquito Aedes aegypti recebe a Wolbachia, por meio de uma microinjeção embrionária, fica impedido de transmitir doenças como dengue, zika e chikungunya. Além disso, quando há a reprodução natural entre os insetos, os novos mosquitos já nascem com a Wolbachia. Os mosquitos que recebem ou já nascem com a bactéria são chamados de Wolbitos.

 

A pesquisa australiana durou cerca de quatro anos. A descoberta foi anunciada em um trabalho científico no ano de 2009. O gerente de implementação na Wolbito do Brasil, Gabriel Sylvestre, explica que os primeiros mosquitos do método foram liberados no país oceânico em 2011. No Brasil, isso ocorreu em 2014. Agora, 15 países utilizam a metodologia.

 

No início, os mosquitos Aedes aegypti eram injetados com a bactéria Wolbachia, tratados em laboratório até a fase adulta e, depois, liberados nas ruas de diversas cidades. A metodologia, no entanto, se tornou tão avançada que não é mais necessário infectar novos mosquitos. Uma grande colônia de mosquitos é responsável por propagar o Método Wolbachia em todo o mundo.

 

Fábrica em Joinville produz mosquitos para três municípios

O Brasil, atualmente, é uma grande referência do Método Wolbachia. A cidade de Curitiba, capital do Paraná, possui a maior fábrica da metodologia do mundo. A cada semana, são produzidos mais de 100 milhões de ovos de Wolbitos no local, que são distribuídos às cidades que adotaram o método. Os pesquisadores enviam os ovos de mosquitos e a ração que deve ser utilizada para a alimentação dos insetos e o fortalecimento da colônia até a fase adulta.

 

Em Santa Catarina, o município de Joinville é responsável pela produção do Estado. Uma biofábrica foi construída em 2024, no bairro Nova Brasília, para atender a demanda da cidade, junto com Blumenau e Balneário Camboriú — que receberam o método em 2025.

 

— Somadas as populações, chegamos perto de 400 mil pessoas que estão sendo contempladas pelo método — afirma Sylvestre.

 

Na biofábrica catarinense, o processo inicia na sala de preparação, onde os ovos de Wolbitos são eclodidos em um equipamento automatizado. As larvas são transferidas para um segundo equipamento para serem contadas e divididas em grupos de sete mil.

 

Na sequência, elas vão para a sala de larvas, onde há bacias com água. As larvas recebem alimento para desenvolvimento por até sete dias. Quando se tornam pupas, estágio entre larvas e mosquitos adultos, voltam para um equipamento automatizado para sexagem e, então, são separadas em grupos menores, com 250 machos e fêmeas. No processo final, as pupas vão para a sala de tubos e eclodem em até 48 horas, quando se tornam Wolbitos e estão prontos para a soltura.

 

O processo de liberação dos Wolbitos ocorre de forma simples. Caixas com diversos recipientes de mosquitos são colocados dentro de um carro. Enquanto transita pelas ruas, equipes da Secretaria de Saúde soltam os Wolbitos pela janela do veículo. Dessa forma, os insetos que não transmitem a dengue tomam conta de várias regiões das cidades contempladas.

 

Resposta rápida

Apesar dos primeiros resultados do Método Wolbachia serem divulgados apenas após dois anos da implantação, os benefícios já são vistos diariamente. Em Blumenau, no Vale do Itajaí, a metodologia foi iniciada há poucos meses, mas já é citada como uma das grandes responsáveis pela diminuição dos casos de dengue.

 

Conforme balanço da prefeitura municipal, 2025 foi marcado por um cenário de controle epidemiológico positivo. O dado mais significativo é a ausência de morte pela doença no ano, um contraste marcante com os 39 óbitos registrados em 2024. Ainda, 410 casos foram confirmados em 2025, uma queda excepcional ao comparar com os 59.229 em 2024.

 

Já Balneário Camboriú, no Litoral Norte catarinense, registrou uma redução de 89% nos casos de dengue em 2025. Além disso, a cidade também não contabilizou mortes em decorrência da doença, resultado positivo em comparação com o ano de 2024, que teve nove óbitos. O município implantou o Método Wolbachia em agosto do ano passado.

 

O gerente de implementação na Wolbito do Brasil, Gabriel Sylvestre, afirma que já recebe feedbacks positivos sobre a presença do método nas cidades catarinenses, principalmente em Joinville.

 

— A gente já tem ouvido muita coisa legal de Joinville. A Secretaria de Saúde tem relatado que a cidade está muito mais calma em relação à dengue. É bem marcante, isso é muito bom e gratificante. Joinville tem se mostrado um grande exemplo, um grande case de sucesso. Na parceria, na forma que a prefeitura abraçou esse projeto e como eles conduzem o dia a dia do núcleo com muito comprometimento, com muita entrega, com qualidade — declara Sylvestre.

 

A queda no número de casos prováveis (confirmados, inconclusivos e suspeitos) de dengue em todo o Estado, que saiu de 334.696 em 2024 para 25.734 em 2025, é vista por médicos e especialistas como o resultado de um conjunto de fatores.

 

O professor e doutor em ciências da saúde Victor Hugo Pereira da Silva explica que mesmo que o Estado continue infestado com focos de dengue (reduziu apenas 5,75% entre 2024 e 2025), a vacinação e o Método Wolbachia se mostraram extremamente eficazes no controle do arbovírus, já que a presença do Aedes aegypti não significa uma maior transmissão da doença.

 

— A perspectiva para 2025 era de que a dengue seria ainda mais séria, mais grave. Porque nós temos dois sorotipos circulando. Mas, pela minha perspectiva, o responsável pela diminuição de casos é o projeto Wolbachia. O inquérito entomológico, publicado pela Vigilância Epidemiológica do Estado, mostra que Joinville está numa região de infestação de Aedes aegypti. Mas o número de casos reduziu mais de 98%. Em contato com pessoas da comunidade, vimos que, empiricamente, não houve essa percepção de número de casos de pessoas acometidas como ocorreu em 2024 — afirma Silva.

 

Essa percepção também chegou à rede pública de saúde de Florianópolis. O médico infectologista do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (HU-UFSC), Rodrigo Douglas Rodrigues, relata que quando há uma alta nos casos graves de dengue, como visto nos últimos anos, reflete em uma superlotação dos hospitais.

 

— Este ano, até o momento, Florianópolis está com um número baixo de casos de dengue, comparado ao ano passado. No entanto, a gente precisa manter todas as medidas para prevenção, porque, em geral, o maior número de casos ocorre no final do primeiro trimestre do ano, então em torno de março, abril. A gente ainda não chegou nesse período. É possível que tenha um aumento nos próximos meses — revela Rodrigues.

 

O médico infectologista ainda explica que o vírus da dengue possui quatro sorotipos existentes. Isso significa que uma pessoa que já foi infectada, por exemplo, pelo sorotipo 1, pode contrair novamente a doença pelo sorotipo 2.

 

— Cada reinfecção é mais grave, porque os anticorpos que a gente produz contra um sorotipo apresentam uma reação cruzada contra o outro sorotipo, mas essa reação não é capaz de impedir a infecção. Ela acaba gerando uma desregulação do sistema imune e provocando um quadro mais grave de dengue — alerta o médico.

 

Como a dengue afeta o corpo humano

A médica Sabrina Sabino explica que a propagação da dengue é um ciclo: um mosquito fêmea pica uma pessoa infectada pela dengue, cerca de 10 a 12 dias se torna infectivo por toda sua vida. Os ovos colocados por essa fêmea já nascerão com o vírus da dengue, auxiliando na disseminação da doença.

Após uma pessoa ser picada por um mosquito infectado, os sintomas começam, geralmente, depois de quatro a 10 dias. Dor de cabeça, febre alta, vômito e vermelhidão na pele são alguns dos sintomas que precisam gerar alerta à pessoa que suspeita que está com a doença.

 

— Quando que eu tenho que procurar a atenção médica de forma imediata? Quando eu tenho uma dor abdominal, uma dor de barriga muito intensa e contínua, porque pode ter sangramento abdominal. Quando eu tenho muitos vômitos persistentes que não melhoram com medicação via oral, porque eu vou desidratar e isso vai levar a uma piora. Quando eu tenho qualquer tipo de sangramento, como na gengiva ou nariz. Quando tem uma diminuição da pressão arterial. Criança, por exemplo, quando está irritada demais — alerta a infectologista.

 

Especialistas ainda alertam para a importância de se manter hidratado durante os dias de sintomas mais intensos. Se a pessoa doente não conseguir ingerir líquidos, é necessário procurar atendimento médico para receber hidratação via venosa.

 

Prevenção

Além de manter os quintais limpos e usar repelente, outro fator importante para a prevenção da dengue é a vacinação. No Brasil, atualmente, existem os imunizantes Qdenga e Butantan-DV, dos fabricantes Takeda e Instituto Butantan, respectivamente, que possuem o vírus vivo atenuado da dengue. Ambas as vacinas protegem de todos os sorotipos existentes da doença.

 

A Qdenga já é ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em diversas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Santa Catarina. A vacina está em uso desde fevereiro de 2024, mas ainda é ofertada para uma faixa etária exclusiva, de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos.

 

Já a Butantan-DV é aprovada para pessoas na faixa etária de 12 a 59 anos. O perfil pode ser ampliado após novos estudos, de acordo com o Ministério da Saúde, e deve ser incorporado ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). A vacinação iniciou em municípios-piloto do Ceará e Minas Gerais em 17 de janeiro.

 

Com a chegada de mais doses da Butantan-DV, a imunização de profissionais da Atenção Primária à Saúde está prevista para fevereiro deste ano. Cerca de 1,1 milhão de doses serão destinadas a profissionais que atuam na linha de frente do SUS.

 

— A gente tem vários artifícios de combate, tanto por parte das prefeituras, do governo Estado e a nível federal, mas a gente também tem a medida coletiva com a vacinação. Então eu preciso incentivar as pessoas a procurarem, a levarem os seus filhos para vacinar na rede pública, porque o imunizante é de graça e está disponível para a população — finaliza a médica infectologista Sabrina Sabino.

 

 

Fonte:NSC

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