Enquanto a Eli Lilly detém no Brasil a patente da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, laboratórios do Paraguai fabricam e comercializam versões próprias do medicamento no mercado local.
Os produtos chamam a atenção de brasileiros principalmente pelos preços mais baixos. Algumas versões paraguaias podem custar uma fração do valor do Mounjaro vendido no Brasil, o que tem aumentado a procura nas regiões de fronteira.
No entanto, existe uma diferença importante: o fato de um medicamento ser comercializado legalmente no Paraguai não significa que ele esteja autorizado para venda ou uso no Brasil.
A Anvisa já determinou a apreensão e a proibição de diferentes produtos de tirzepatida sem registro sanitário no país. Em abril, por exemplo, a agência proibiu a comercialização, distribuição, importação e uso de produtos identificados como Gluconex e Tirzedral produzidos por empresa não identificada.
Por que as canetas são vendidas no Paraguai?
A diferença está relacionada, entre outros fatores, à territorialidade das patentes. A proteção de uma patente é válida nos países em que ela foi solicitada e concedida. Dessa forma, as regras que impedem a fabricação de determinado medicamento em um território não necessariamente se aplicam da mesma maneira em outro.
No Paraguai, empresas locais fabricam diferentes versões de tirzepatida e as comercializam sob marcas próprias.
Uma reportagem recente também mostrou que o laboratório paraguaio responsável pelo Gluconex avalia solicitar registro do produto à Anvisa para tentar comercializá-lo legalmente no Brasil. A agência, porém, informou que ainda não havia recebido o pedido.
Quais são as versões de tirzepatida vendidas no Paraguai?
Entre os produtos encontrados no mercado paraguaio estão:
T.G., da Indufar;
Lipoless, da Éticos Scavone;
Tirzec, da Quimfa;
Tirzedral, da Laboratorios Catedral;
Gluconex, da Vicente Scavone & Cia.;
Lipoland, da Landerlan.
As apresentações variam entre frascos-ampola, seringas e dispositivos semelhantes a canetas aplicadoras.
Quanto custa a tirzepatida no Paraguai?
O preço é um dos principais atrativos para consumidores brasileiros. De acordo com os valores apresentados na reportagem, versões paraguaias podem ser encontradas, dependendo da marca e da dosagem, por aproximadamente R$ 230 a R$ 900.
O Gluconex, por exemplo, aparece em determinadas apresentações por valores próximos de R$ 220, enquanto doses maiores podem ultrapassar R$ 400. Já o Mounjaro comercializado oficialmente no Brasil pode custar mais de R$ 1 mil, dependendo da apresentação e da dose.
A diferença de preço ajuda a explicar a procura pelos produtos paraguaios, especialmente nas cidades próximas à fronteira.
Canetas paraguaias são iguais ao Mounjaro?
Não é possível afirmar isso apenas pela presença de tirzepatida no produto.
A Anvisa esclareceu que é falsa a informação de que testes laboratoriais teriam comprovado a equivalência das canetas paraguaias com os medicamentos registrados no Brasil. Segundo a agência, identificar o princípio ativo não é suficiente para comprovar equivalência, segurança ou eficácia.
Uma análise citada em reportagem da Folha encontrou tirzepatida nas amostras paraguaias analisadas, mas o estudo não avaliou características como esterilidade, estabilidade ou segurança clínica. Em uma das amostras, também foi identificada uma concentração de princípio ativo superior à esperada.
Por isso, a existência da mesma substância na composição não significa que o produto tenha passado pelas mesmas avaliações exigidas para um medicamento registrado no Brasil.
Quais são os riscos das canetas paraguaias?
O principal problema apontado pelas autoridades brasileiras é a falta de registro sanitário e de controle equivalente ao exigido no país. Sem a avaliação da Anvisa, não há a mesma garantia regulatória sobre aspectos como composição, fabricação, estabilidade, armazenamento e segurança do produto.
A própria Anvisa alerta que medicamentos sem registro podem representar riscos à saúde. A agência também já proibiu produtos de tirzepatida de determinadas marcas e determinou sua apreensão.
Além disso, a agência alerta para possíveis eventos adversos relacionados ao uso inadequado de canetas emagrecedoras. Entre eles está a pancreatite aguda, que pode ocorrer com medicamentos como a tirzepatida e cuja probabilidade pode aumentar quando há uso inadequado.
Posso trazer uma caneta do Paraguai para o Brasil?
A situação depende das regras sanitárias brasileiras e da documentação do produto. A Anvisa afirma que medicamentos sem registro no Brasil somente podem ser importados em situações excepcionais, para uso exclusivamente pessoal e mediante o cumprimento dos requisitos estabelecidos pela agência.
Portanto, comprar uma caneta no Paraguai e simplesmente atravessar a fronteira com o produto não significa que a entrada no Brasil esteja automaticamente autorizada.
A fiscalização sobre esses produtos também aumentou. Em 2026, a Anvisa adotou novas medidas para combater irregularidades envolvendo a importação e a manipulação de canetas emagrecedoras.
Anvisa e Paraguai reforçam fiscalização
Em agosto de 2026, Anvisa e Dinavisa, autoridade sanitária paraguaia, firmaram um acordo de cooperação para ampliar a troca de informações e o combate a produtos ilegais. A parceria prevê compartilhamento de dados técnicos, informações sobre boas práticas de fabricação e ações relacionadas à fiscalização de medicamentos.
A medida ocorre justamente em meio ao aumento da circulação de canetas de tirzepatida vindas do Paraguai no mercado brasileiro.
Fonte:Scc10